domingo, 29 de julho de 2012

O Fim da guerra contra as drogas e um novo pacto social pelo desenvolvimento



Pedro Teixeira*

RESUMO
O presente artigo visa fazer uma análise sistemática da política sobre drogas adotada pelo mundo e pelo Brasil pós convenção única de 1961 e que entrou em crise aguda devido a ausência de efetividade nesta política pública que se iniciou prometendo uma “Guerra contra as drogas” e o “Fim das drogas” mas que malgrados décadas desde sua ratificação pelos países membros das Organizações das Nações Unidas em 1961, o que temos é o aumento vertiginoso da população carcerária pobre, negra, jovem, feminina e usuária. Além disso, têm-se o objetivo de mostrar quão ineficiente do ponto de vista do gasto público, se tornou a política de combate e repressão as drogas, já que os custos para sua manutenção crescem na mesma proporção em que crescem o uso, o comércio, a ineficiência e o encarceramento dos partícipes neste comércio.  Por fim, resgata-se a necessidade de um novo pacto social em que as drogas sejam encaradas como dado-fato em nossa sociedade para que seus usuários e comerciantes possam ser atingidos com políticas públicas transversais e conjugadas de modo a revertermos o quadro atual.

Palavras-chave: Drogas; Políticas Públicas; Cannabis; Encarceramento; Violência; Juventude;


Passos estranhos ecoam em nosso dia a dia. No caminho ao trabalho, na ida à escola, rumo a balada, no domingo de passeio com a família. São passos de homens e mulheres que não foram comtemplados pelo modelo social da meritocracia e do consumo que temos, nem pelas políticas públicas existentes e que já foram expulsos de seus círculos sociais a algum tempo por serem “descontrolados”, “violentos”, sem “liberdade de escolha”.

Para alguns deles sobram a tal mendigancia. Para outros, sobra um grande mercado paralelo, não oficial, sem regulamentação ou padrão de qualidade, que movimenta bilhões de reais só aqui no Brasil e que leva todos os envolvidos a correr um grande risco de saúde, segurança e liberdade.

Além disso, esse mercado não se importa quando “descobre” que os recrutados não possuem empregos ou são viciados. Não liga sequer em recrutar as crianças que pela completa insuficiência no seu dia a dia que hoje a escola, a família e os modelos tradicionais de educação representam, fazem a opção em ganhar dinheiro de forma mais rápida para ajudar em casa e ainda dando algum “barato”.
Nesse mercado paralelo, tudo começou com um único produto: a cannabis, maconha, marijuana, grass, como queira.

A cerca de 100 anos atrás, o mundo só conhecia 4 tipos de entorpecentes generalizados: O álcool (Proibido nos Estados Unidos, diga-se de passagem), o Tabaco (in natura, preparado artesanalmente com o fumo), o ópio (Trazido do oriente e renegado pelo mundo ocidental em massa) e a maconha (Produzida artesanalmente e utilizada sem grandes constrangimentos sociais a milênios, tão antiga quanto o vinho).

O Primeiro olhar que precisamos ter disso tudo, antes de iniciarmos o debate, é o abandono e quebra de qualquer tabu relacionado a danada.  Sim, qualquer tabu, pois estamos querendo falar de um problema muito sério em que todos podemos nos deparar um dia e ouvir aqueles mesmos passos estranhos do início do texto, vindo de alguns de nossos filhos, familiares ou amigos e continuarmos a não saber lidar com isso.
Estima-se que dos 230 milhões de usuários de drogas, “existem entre 119 milhões e  224 milhões de usuários de cannabis no mundo”[1]

O pouco que sobra do total de usuários, são resultados de dezenas de substâncias em que apesar de algumas sérias como a heroína, o crack e o próprio ópio, em suma, também constam inúmeros remédios industriais, os Lisérgicos e recorrentes casos de uso de medicamentos hospitalares como a morfina.

Veja portanto que estamos falando aqui basicamente de usuários da maconha que sistematicamente à 80 anos, devido a uma política de segurança nacional e combate as drogas pelos EUA espalhada para todo mundo através da Convenção única sobre drogas da ONU de 1961, são tratados como criminosos, bandidos, doentes e comerciantes ilegais.

 É completamente aceitável neste caso ter uma abordagem para as drogas com esse recorte dos usuários majoritários de cannabis inicialmente, e assim podermos dar uma organizada nessa confusão generalizada que se instalou no mundo pós-guerra contra as drogas iniciada pelos americanos.

Talvez um cristão ou uma senhora mãe de 5 filhos e todos jovens, que nos lê, achem as drogas um grande problema na sociedade.
- Valha-me Deus, um dia estar envolvido nessas coisas, meu filho não merece isso, afirma a mãe.
- Cristo tem poder e renova toda criatura, afirma o cristão.

Entretanto, o objetivo deste texto não é o de entrarmos nos aspectos morais do que levam pessoas a usar sustâncias psicotrópicas. Essa resposta precisa ser analisada intimamente por cada cidadão e cidadã que além de possuir  um polegar opositor (o que os torna radicalmente mais complexos que qualquer outro animal), acima de tudo possuem a capacidade de raciocinar e refletir.

Aqui, estamos brevemente levantando a necessidade de o Estado Brasileiro apresentar alternativas concretas de reversão de um quadro catastrófico.

O Brasil hoje apresenta a taxa absurda de ser o quarto país com maior encarceramento mundial.[2]  Nós só perdemos para os Estados Unidos que já prendeu mais de 2,3 milhões de sua população, além de ter mandado para o corredor da morte outros milhares.[3]  

Por aqui, dados do Ministério da Justiça mostram que de todos os presos a maioria (cerca de 59%) são jovens. Cerca de 20% dos aprisionados  homens estão ali pelo  tráfico de drogas.[4]
Na maioria dos casos, devido a lei 11.343/06 ser completamente subjetiva, a linha entre o usuário e o grande traficante se mostra tênue demais para se falar em justiça.

Nas cadeias femininas, esse índice atinge a alarmantes 60% do total encarcerado, o que prova em grande medida que o judiciário vem prendendo mães, namoradas, esposas, amantes e mulheres que são obrigadas a levar tais substâncias à seus “homens” na cadeia, ou que precisam ficar e tomar o lugar de direção do negócio, quando todos vão presos.[5]

Para se ter uma ideia, apenas 16% entre os homens e 7% entre as mulheres, dos julgamentos que levam à prisão, são motivados por homicídio e irrelevantes 16% entre os homens e 7% entre as mulheres por furto que em sua maioria deveriam ter sido perdoados por menor dano lesivo.[6]

A Cadeia no Brasil tem cara, cor, idade – a maioria é jovem, renda e motivos de aprisionamento.  Por ela, passam pobres, jovens, negros, mulheres, pessoas sem escolaridade e acima de tudo, qualquer um daqueles que como no inicio do texto “Passam ecoando de maneira estranha em nosso dia a dia.”

Quando o assunto é a criança e o adolescente, vemos uma realidade mais grotesca.  Mercado ilegal de drogas não paga imposto, mas paga “arrego”, propina, taxa de manutenção, compra armamentos pesados, carros blindados, castelos colossais e isso tudo não custa uma pechincha. Ter que pagar funcionários maiores de idade, com jornada de trabalho e condições dignas de atividade laboral, nem pensar. Dá uma dor de cabeça, prisão e a vida fica muito mais difícil já que nem todo mundo se preza a correr esse risco.

Entretanto, com a criança ou o adolescente não “dá cadeia” e tem um monte por ai que nem gosta da escola e que quer um dinheiro rápido para ajudar em casa e consumir as novidades globalizadas e assim se sentir parte da sociedade do consumo. É tudo muito rápido, o dinheiro de quem compra, está na mão de quem vende na mesma velocidade de quem repassa a droga e todo mundo sai feliz, ao menos momentaneamente.

Pesquisa feita pela Central Única das favelas e registrada no documentário Falcão – Meninos do Tráfego, mostram que o comércio ilegal de drogas é extremamente rotativo, muda de lugar inúmeras vezes  com a mesma intensidade que muda seus donos de “boca” e seus “profissionais” vendedores.  Ambos, os gerentes e donos, bem como os vendedores “aviãozinhos”, possuem um índice de mortalidade que se inicia aos 12, 13 anos e se encerra quando muito velho, aos 24 anos de idade. 

Como resultado desse modelo, vemos o aumento do medo. Da falta de se enxergar dentro de outro cidadão e percebê-lo como sujeito em igualdade que todavia, está em total desigualdade com a mass society.

Vemos o Estado, como o conceito aplicado no Espírito Santo de “Estado Presente”, querendo perpetuar um modelo que desde a década de 1960 vem demonstrando sua falência. É só analisar estudos comparativos de gasto com a segurança pública e os índices obtidos nos últimos 10 anos.

A ideia de desenvolver políticas públicas advém do princípio máximo de o Estado ser um agente de desenvolvimento. Para tal, ele desenvolve junto com o público e as pessoas, soluções sob determinado tema pré-definido, para toda coletividade e que não poderiam ocorrer de maneira uniforme e de massas se fosse realizado pela iniciativa privada ou pela intenção de um único cidadão social. Essa política pública, basicamente pressupõe elaboração, implementação, avaliação e execução final. [7]

Pois bem, vamos nos ater à política pública de segurança do Governo do Estado do Espírito Santo como exemplo e analisarmos sua elaboração, implementação e execução para vermos se ela vem atendendo de forma a cumprir os objetivos definidos e se ela atende aos corolários básicos da administração pública que são a eficiência, a publicidade, a economicidade e a ética.

O Espírito Santo é o segundo estado em numero de homicídios do Brasil, perdendo apenas para Alagoas. Dados de 2008 mostram uma taxa de 56,4/100mil hab. O Mesmo se mantém nesse ranking, desde 1998 quando o índice começou a ser divulgado. Segundo padrões internacionais, vivemos uma epidemia em guerra civil disfarçada. [8]

Já Vitória, capital do Estado, que atingia índices acima dos 60/100 mil habitantes, teve suas taxas de homicídios reduzidas pela metade, alcançando a casa dos 30/100 mil habitantes em 2011. Fruto de uma política municipal de segurança que incorporou o conceito da cultura de paz e polícia cidadã em todas as ações realizadas pelo conjunto das Secretarias Municipais inclusive e principalmente a de segurança, reduzindo custos.

No Estado do Espírito Santo, enquanto as taxas continuam altíssimas, é bem verdade que nos últimos anos o investimento em segurança pública aumentou. Compramos mais carros de polícia, muito mais armas, equipamos a segurança pública com grandes instrumentos de guerra, fuzis, coletes, helicópteros, aparelhos de escuta e sondagem de última geração. 

Também construímos delegacias, presídios, centros de detenção provisórias, casas de passagem, fizemos mais e mais concursos públicos para a polícia investigativa e ostensiva, prendemos milhares de pessoas, crianças e principalmente: Muita, mas muita maconha.

Não que não tenha havido prisões de alguns traficantes, de laboratórios de drogas sintéticas, mas em suma foram toneladas e toneladas de uma planta que por ser proibido o consumo e comércio, foi prensada, misturada, escondida e apreendida.

Vamos portanto  a um resumo dos dados já elencados:

-       Quase 90% dos usuários de drogas utilizam a maconha e seus demais componentes;
-       A maioria das prisões no encarceramento brasileiro são ligadas ao consumo e tráfico de drogas;
-       Mulheres, filhas, mães, crianças estão sendo presas, molestadas e mortas por que são obrigadas pelo poder paralelo a gerir, entregar e comercializar a tal “droga”;
-       A 15 anos a receita de investimento em segurança pública aumenta, a tecnologia é incorporada, temos mais policiais nas ruas mas a violência não diminui, o tráfico ilegal cresce e a repressão aumenta;
-       Consequentemente, cresce o mercado paralelo de vendas de armas para municiar e proteger seres despreparados para manusear estas armas, cresce a violência devido ao embate e choque entre a repressão policial e a força do tráfico ilegal.

E hoje estamos num cerco que só pioram as coisas. O sistema ilegal do comércio de drogas, devido a sua realidade - vindo da periferia, sem escolaridade, advindo de um histórico de homéricas injustiças, violência familiar, violência policial, ausência da presença do Estado que só chega como força de polícia e não com políticas públicas de inclusão, cuidado e emancipação dessas gentes,  provoca o que vou chamar de “pseudo-cidadãos acuados”, como numa panela de pressão.

A tal Carminha, vilã da dramaturgia da grande mídia, mostra, guardando as devidas proporções, um pouco do retrato social que estamos falando. É bem possível dizer que tanto ela quanto sua rival “boa-moça”, são reféns de uma panela de pressão que exerce poder motriz uma com a outra dentro da panela, assim como o chuchu e o feijão,  ao passo de explodir, assassinar, subjugar, violentar.

A Panela de pressão, gerada pela falta de políticas públicas que recuperem territórios sitiados, que construa com as comunidades locais saídas de desenvolvimentos próprios, que empodere e dê perspectiva de futuro para atores marginalizados, e  a única representação do Estado nesses locais vindo da polícia repressiva que “confisca” uma mercadoria que não pertence ao Estado, que oprime, violenta e subjuga atores sociais nas favelas e que trata usuário e traficante como “malandro e “vagabundo”, não tem a menor chance de prosperar.

É completamente inaceitável do ponto de vista público, do ponto de vista social e do ponto de vista econômico já que os recursos do Estado são finitos, imaginar que uma política pública em que só avolumam-se os gastos, as pessoas presas, as mortes e o aumento da circulação do material que era para deixar de circular – a droga, como uma política de sucesso.

Também é inaceitável do ponto de vista do princípio da razoabilidade e economicidade, inexoráveis para a administração pública, ser autorizado e ratificado por nossos órgãos de controle como o Tribunal de Contas,  essa gigantesca gastança do dinheiro público, para executar políticas obsoletas e que não funcionam.

É como se o Governo construísse um prédio gigantesco, numa obra que perdura décadas, em que há inúmeros aditivos de aumento do valor final da obra e ainda assim, acharmos isso normal pois, mesmo com a demora e o enorme gasto público, um dia o grande prédio estará pronto para a sociedade.

Não acreditamos nessa falácia.  É bem provável inclusive que se porventura em alguma década tal prédio se tornar acabado, já será tão obsoleto seu uso na sociedade quanto foi o objetivo inicial de justificativa para iniciar a sua construção.

É preciso entender o sistema complexo que a droga esta inserida. Nossa sociedade a partir da crise do petróleo se desenvolveu numa intensidade e velocidade global em que problemas lineares que pareciam simples como a equação: Usuário + Droga = Bandido ou Droga + Traficante = Violência, como diria o ilustre filósofo Hunger Habermas, carecem de contradição performativa de linguagem e portanto não são reais. [9]

Como exemplo cotidiano, para desmistificar a ideia de que drogas e violência andam juntas e assim podermos iniciar o olhar para propostas integradas de um sistema complexo que precisa ser analisado e executado de maneira múltipla, podemos pegar o princípio do tráfico.

Um usuário de maconha, oriundo de um bairro de classe média ou alta, ao procurar tal produto para fazer seu uso pessoal, tem duas opções:

No primeiro caso ele planta em casa, já que suas paredes são bem grossas e o risco de ter problemas externos é pequeno é só para seu uso.

No segundo caso ele pede a um “colega X” que é de seu mesmo círculo social mas é quem possui um agenciador que faz o link com a periferia e que é quem de fato faz a compra da planta.

Em sua casa confortável, com paredes mais grossas e com risco quase zero de ser incomodado pela polícia, esse usuário recebe sua erva, repassa um dinheiro um pouco mais caro do que se fosse in loco buscar, os custos são repassados e a depender do nível de amizade, o usuário e o vendedor saem depois de um “barato” e dão um pulo na praia.

Onde a Violência esteve inserida nesse processo de comércio da droga?

Já no segundo caso, a droga é proibida e impera no imaginário social e estatal sob a ordem de reprimir, prender e confiscar qualquer entorpecente.

Tal égide, provoca o efeito da panela de pressão social que falamos anteriormente já que a pressão da polícia no confisco e prisão é estatisticamente comprovada, em cima do pobre, do jovem,  do negro e da mulher em vulnerabilidade social, refém de sí próprio e com todos os seus direitos individuais em grande medida, negados.

Nesse cenário, um cenário em que o cidadão sitiado no “morro”, na comunidade ou na periferia não pode recorrer ao Estado para lhe ajudar se não vai preso, leva tapa no pescoço ou é maltratado pela sociedade do crime, o que resta é arrumar um jeito de vender mais drogas ilegais para ganhar mais dinheiro, poder comprar mais armas, poder contratar mais “funcionários” e ir para uma guerra em constante disputa com o único serviço público que atinge diariamente seu território – a polícia que veio para combater a violência.

Segundo Michaud,

“Há violência quando, em uma situação de interação, um ou vários atores agem de maneira direta ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou a mais pessoas em graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas posses, ou em suas participações simbólicas e cultuais”.[10] (grifo nosso)

Mas, se violência é isso então, há violência quando o Estado atua de maneira direta, reprimindo cidadãos pelo uso de algo que a posteriori foi chamado de droga. Há violência indireta quando a Polícia atua de maneira ostensiva, mostrando seus fuzis e delimitando quem pode ou quem não pode traficar.

E o mais importante, há violência quando o Estado, através da polícia, fica autorizado, amparado numa tal lei de drogas que nunca foi discutida com a sociedade, a atingir diretamente a dignidade humana de vários cidadãos presentes nessa panela de pressão proibitiva atingindo sua integridade física, espancando-os, sua integridade moral, humilhando-os e principalmente quando agridem seu território simbólico e cultural com toque de recolher, fechando bailes funk’s, Raves  ou praças e parques de convívios por exemplo.

A panela de pressão é usada para amolecer nossos alimentos. Cozinha mais rápido, agrega tipos de alimentos que só ficam prontos para comer se ela existir, mas se passar do tempo necessário para ela funcionar, ela explode.

Uma dona de casa ou o maridão expert em usar a panela de pressão sabe que depois de um tempo é preciso desligar o fogo, esperar o vapor sair calmamente, abrir a panela de pressão com cuidado e aguardar os alimentos de modo que a temperatura seja a ideal para ingerí-los.

Com o sistema das drogas, o Estado Nacional, as federações e os municípios, precisam urgentemente fazer um intenso pacto para elaboração e implantação de políticas conexas, interligadas, complexas e transversais que não se limitem apenas ao aspecto normativo de proibição, autorização, regulamentação ou descriminalização da droga.

Só se ater à norma, seria desenvolvermos uma nova lei de drogas sem compromisso com o mundo real e toda a cadeia das drogas enraizada em nossa sociedade que precisam do acompanhamento do Estado de forma conjugada em que a polícia, devido ao seu alto teor de pressão, deve ser a última das alternativas e não a primeira e única como acontece nos dias de hoje.

Assim, da mesma maneira sábia que a dona de casa ou seu marido portador também de polegar opositor e passível de reflexão, sabe a exata hora de desligar o fogo, esperar o vapor sair calmamente e aguardar os alimentos a estarem aptos para o convívio alimentício, o Estado Brasileiro precisa quebrar mitos e tabus históricos que tem levado a nossa sociedade a entrar num total colapso em que o comércio de entorpecentes da forma como esta, realizado no mercado negro, tem levado nossos sistemas de convívio e restrição social a perderem seus sentidos básicos que é o de ressocialização daqueles que cometem crimes perante toda a coletividade, e de amparo a triste realidade de exclusão provocada pela ausência do Estado nas regiões mais pobres da cidade.

Jogar a culpa no colo da violência provocada pelo tráfico de drogas é enganar a sociedade, as pessoas e a própria razão de existência do Estado que é cuidar bem se seus súditos.

Jogar a culpa da violência na mão do tráfico e do usuário que compra a droga e não mostrar a verdade para toda a população: O Estado do Espírito Santo, o Brasil e o Mundo, foram incompetentes no trato com a droga e preferiram mais verbas e dinheiro circulando do que eficiência nas políticas públicas. 

pppppppppp qus r agora conjugadam mais verbas e dinheiro circulando do que eficiencia e de exclusa estarem aptos para o convzadaÉ preciso portanto reconhecer que a política de repressão das drogas falhou e precisa vir agora conjugada pela atenção à saúde do usuário e a prover possibilidades de inclusão, empoderamento e emancipação de todos aqueles atores sociais marginalizados que a sociedade e o Estado negaram direitos por séculos.


* Pedro Luiz Teixeira é formado em Planejamento e Gerenciamento de projetos, Aluno de Direito da Universidade Federal do Espírito Santo, Membro do Conselho Nacional de Juventude e atualmente é Assessor de Juventude na Secretaria de Coordenação Política da Prefeitura de Vitória.




[1] Fonte: World Drug Report 2012
[2] Fonte:  Dados Extraídos Do King’s College London - World Prison Brief, 2010
[3]  Fonte:  Dados Extraídos Do King’s College London - World Prison Brief (Nº Atualizados Até 30.06.09)
[4] Infopen, dados consolidados, 2008.
[5] Infopen, dados consolidados, 2008.
[6] Infopen, dados consolidados, 2008.
[7] Politicas Publicas E Desenvolvimento - Bases Epistemologicas E Modelos De Analise, Heidemann, Francisco G. Editora Unb – 2010.
[8] Mapa da Violência, Os Jovens do Brasil – 2011.
[9] Filosofia, racionalidade, democracia: os debates Rorty & Habermas, p. 36, ED. UNB
[10] MICHAUD, Y. A violência. Ática: São Paulo, 1989.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O PT e as eleições municipais*



*Pedro Teixeira


O Partido dos Trabalhadores floresceu sob a égide de se tornar uma alternativa política as elites e governantes que desprezando a vontade popular, se mantinham no poder apenas pelo status quo.

Mais de 30 anos se passaram desde sua fundação e tal paradigma se mantém vivo como nunca. É bem verdade que os 10 anos do PT à frente do Governo Federal mudaram realidades. O Estado Brasileiro se fortaleceu, as instituições republicanas se consolidaram e definitivamente há uma nova classe política disputando a luta hegemônica com aqueles que secularmente impõem suas vontades para o povo Brasileiro.

Entretanto, 10 anos à frente do Governo Federal, foram suficientes para o partido perceber que para mudar o Brasil, é necessário mais do que apenas se manter à frente da Presidência da República. Era preciso alcançar uma maioria no Congresso para governar o País.

Todo esse zig-zague político, nos fez adquirir a maior base aliada da história de nosso País. Somados ao Campo Democrático Popular, apareceram inúmeros outros partidos que vendo esvaziado o núcleo do poder Tucano, viram como oportunidade aderir à base do atual Governo.

Em nome da governabilidade e relevando as insuficiências programáticas, cada eleição municipal desde 2002, levou o Partido dos Trabalhadores a tomar como postura a renúncia de diversos municípios e governos estaduais em nome da continuidade da administração federal.

2012 é um ano histórico. Para além das superstições holísticas que o ano nos remete, 2012 deixou claro a necessidade do partido fortalecer a estratégia de retomar o modo petista de governar que se iniciou com enorme sucesso nas Prefeituras Municipais. Governos pioneiros como de Olívio Dutra e o orçamento participativo em Porto Alegre, serviram de base para acumularmos condições de construir, elaborar e implementar políticas públicas de alcance nacional.

Da mesma forma, 2012 deixou claro a falta de ambiência programática que muitos partidos da base aliada, possuem em relação à visão ideológica que o PT implanta na sociedade. Tais fissuras, deixam claro que 2014 não será um ano de estabilidade e continuidade do jogo político-eleitoral iniciado por LULA. Pelo contrário, será um ano, em que a depender do desempenho que tivermos nestas eleições municipais, as fissuras expostas na base aliada, deverão se consolidar de forma a se constituir uma nova candidatura à Presidência da República diferente da candidatura petista e da oposição.

Uma candidatura que por nascer de nossa base aliada, trará enormes problemas de esvaziamento político e ideológico para adentrar na trincheira do vale tudo em nome das amarrações fisiológicas.

Neste ambiente, é fundamental o Partido dos Trabalhadores garantir Vitórias nas eleições Municipais como na Cidade de Vitória e retomar a prevalência das discussões programáticas de rumos das nossas cidades que se encontram a cada dia em crise pelo trânsito e por sistemas anti-sustentáveis que excluem as pessoas em detrimento da especulação imobiliária e do lucro.

Vitória passou 8 anos sendo administrada pelo PT e provou que onde o PT governa dá certo. Inúmeros são os prêmios recebidos pela Capital que comprovam essa ideia.

Uma das melhores gestões fiscais entre os municípios do Brasil, um dos maiores investimentos nas áreas sociais do orçamento, a melhor capital em qualidade de vida, diminuição da pobreza e da desigualdade, um dos melhores orçamentos participativos do Brasil, o melhor sistema de saúde entre as capitais do Brasil, o melhor mecanismo de participação social do Espírito Santo com mais de 24 Conselhos Municipais em parceria com a sociedade civil, a maior redução de homicídios e de violência do Espírito Santo, sendo hoje uma das melhores cidades para se viver.

Situação muito diferente da encontrada pelo PT e pelo prefeito João Coser em 2005 quando assumimos a prefeitura da mão de Luiz Paulo Veloso Lucas e do PSDB.

Cenas como o funcionalismo público sem plano de carreira, ausência de concursos públicos, prédios e estrutura dos serviços públicos sucateados, Sub loteamento da política de Assistência Social, Baixíssimo investimento no desenvolvimento humano, social e na saúde, bem como a gritante necessidade de obras em infra-estrutura eram situações rotineiras.

O PT portanto, não só possui uma estratégia de nação, soberania e desenvolvimento para o Brasil, como consegue traduzi-la em qualidade de vida, participação social, democracia e boa gestão em nossas cidades.

Garantir a continuidade desse projeto com IRINY LOPES para Prefeita é Amar a cidade de Vitória. É não permitir retrocessos e a volta da política que o PT há mais de 30 anos combate. A política das elites e de governantes que desprezam a vontade popular e a democracia.




*Pedro Teixeira é Secretário Estadual da Juventude do PT no Espírito Santo.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Por uma Vitória mais justa queremos mais PT nestas eleições!


Por uma Vitória mais justa,
queremos mais PT nestas eleições, queremos IRINY LOPES PREFEITA!


No Espírito Santo, ano de eleição é sinônimo de Geopolítica. Ano sim outro não, a classe política se depara em obrigatoriamente se curvar para as movimentações e aproximações que tenham como resultado a manutenção da hegemonia do Ex-Governador Paulo Hartung.

No ambiente político, há quem diga que Paulo Hartung sofre da síndrome da branca de neve: Ao lado dele só anão. Só aceita como aliado quem fica menor que ele, mesmo que para isso o ex-governador tenha que diminuir seus aliados a tamanhos que não coloquem em risco seu poder.

Desde 2002 quando foi eleito Governador pela primeira vez, todas possíveis ameaças à construção de uma hegemonia de poder que girasse em torno dele foram duramente reprimidas.

Saíram presos os aliados de Gratz a partir do “Novo Espírito Santo”, bem como diminuíram na política a Família MAX, os Camatas e o PSDB e o PSB que o abrigaram para ser candidato outrora.

O jogo embaralhado da política de 2012 é resultado das eleições de 2011 no ES com a intervenção de LULA para que Casagrande e o PSB fossem candidatos ao Governo.

A geopolítica, tão segura até 2010, foi posta em “xeque” a partir de então. Com o aumento súbito do PSB pela eleição estadual, o Ex-Governador buscou retomar seu espaço político e poder perdido.

Tentou usar o PT como escada para sob sua batuta, com a Prefeitura da Capital, ter Poder e assim organizar seu clube de interesses pessoais para retomada do Governo Estadual.

Chantageou o partido afirmando que sua candidatura era impossível de ser derrotada e ameaçou seu isolamento na geopolítica estadual se o PT não retirasse sua legítima candidatura para ser seu vice.

Entretanto, esqueceu Paulo Hartung que diferentemente dos partidos que o abrigaram outrora, o PT é um Partido Vivo, com forte intimidade na sociedade civil e nos movimentos sociais, bem como um partido coletivo.

O PT não aceita jogos prontos. Sempre quando disputou eleições majoritárias neste Estado, suas campanhas foram pautadas no debate com a sociedade e pela disputa contra projetos antagônicos a sua missão de mudar para melhor a vida das pessoas. Foi assim nas Candidaturas de Perly Cipriano outrora, no Governo de Vitor Buaiz, nas eleições para Prefeito de Vitória em 2004 e 2008 com João Coser e nas Eleições de 2008 em Vila Velha com Claudio Vereza.

Além disso, o PT é o partido da Unidade. Partido de companheiros e companheiras que sonham juntos uma sociedade mais democrática e igual, e que não aceitará sob hipótese alguma a imposição de uma candidatura pessoal sob os interesses coletivos e da sociedade.

Em 2012 a candidatura de Iriny Lopes é a resistência contra interesses individuais. É a prova viva de que o PT não aceita chantagens, não tem dono, é coletivo e sabe defender seu projeto com unidade.

A resistência do Partido dos Trabalhadores, ajudou a fortalecer em todos os partidos, na classe política e na sociedade, a necessidade de resgatar a soberania popular nos processos decisórios e a liberdade de cada partido em poder decidir seus candidatos pelos seus processos internos.

A tentativa de isolar o PT e de afirmar que era necessário “Rumo” na administração de Vitória, foi a tentativa de se apoiar no PT, para conseguir força de combate a nova direção política que o Estado do Espírito Santo constrói sob a direção de Renato Casagrande.

Apresentando um projeto pronto em que ao PT, com os recentes desgastes na Prefeitura de Vitória orquestrados por Paulo Hartung e divulgados pela Rede Gazeta, só caberia a posição de vice-prefeito nesta história.

A desistência de Paulo Hartung para Prefeito de Vitória, não é fruto de uma conveniência pessoal para se dedicar a família. Pelo contrário, é resultado de uma efervescência social protagonizada pelo PT que entendeu não ser mais possível caminhar com o Ex-Governador.

Por tudo isso queremos a continuidade dessa Vitória mais justa. Queremos mais PT para a cidade de Vitória. Queremos que 2012 seja um ano em que os interesses coletivos de fato se sobreponha aos interesses pessoais.

O Encontro de Tática Eleitoral dos próximos dias, precisa demonstrar mais do que nunca a maturidade do Partido em ter unidade na construção de sua candidatura própria.

O PT tem a oportunidade de declarar um basta a geopolítica! Um basta ao império Paulo Hartung para se construir uma nova Cultura Política no Estado.

O resultado das eleições de 2012 protagonizada pelas eleições de Vitória, pode resultar na queda da hegemonia de Paulo Hartung e no no fortalecimento do PT. Por tudo isso, assinamos esta carta à Vitória no acerto de que a Candidatura de Iriny Lopes para Prefeita de Vitória representa o melhor movimento para a cidade, o Partido e o Estado do Espírito Santo.

Representa a resistência a 10 anos de um império que desprezou a juventude e que fez os índices de extermínio e de violência contra o jovem dispararem e se tornarem um dos maiores do Brasil.

10 anos de privatização da Educação, da saúde e dos hospitais, das masmorras capixabas e atentados aos direitos humanos, de combate aos movimentos sociais, aos estudantes e de fortalecimento das decisões das multinacionais e empresas contra a sociedade.

Contra a continuidade desse modelo falido e na certeza de que Vitória tem rumo e sabe o que quer, defendemos o Projeto do Partido dos Trabalhadores à Prefeitura de Vitória, defendemos a Candidatura de Iriny Lopes para Prefeita – Queremos votar no 13 novamente!


Assinam: MOVIMENTO MUDANÇA - ESPÍRITO SANTO / MAIS-PT/ES / PEDRO LUIZ TEIXEIRA – SECRETÁRIO ESTADUAL DA JUVENTUDE DO PT / VINÍCIUS DE LIMA – SECRETÁRIO DE ORGANIZAÇÃO DA JPT / MARCOS SENA – COORDENADOR DO CENTRO DE REFERÊNCIA DE JUVENTUDE / MAX DIAS – SECRETÁRIO EXECUTIVO DO CONSELHO MUNICIPAL DE JUVENTUDE DE VITÓRIA / LUCAS ROSA – PRESIDENTE DO CONSELHO MUNICIPAL DE JUVENTUDE DA SERRA / RAMON MOREIRA – DIRETOR DE ARTICULAÇÃO DO DCE DA UFES / LUIZ GUSTAVO POTKUL – PRESIDENTE DA ATLÉTICA CENTRAL DA UFES / PEDRO BARCELOS – DIRETOR DO CENTRO ACADÊMICO DE MATEMÁTICA / FRANCISCO SIZINO – PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DE VALPARAÍSO / WAGNER BAMBIRRA – DIRETOR DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DE BELA AURORA / SEBASTIÃO CÂNCIO – MOVIMENTO NEGRO DO ESPÍRITO SANTO / LUARA RAMOS – MARCHA DAS VADIAS - DIRETORA NACIONAL DO MOVIMENTO MUDANÇA / RAFAEL BREDA – SECRETÁRIO MUNICIPAL DA JUVENTUDE DO PT DE VITÓRIA / JACIMAR BOMFIM – ALUNA DE DIREITO DA UFES / TON LÚPES – CONSELHEIRO DO CONSELHO MUNICIPAL DE VITÓRIA / RANDELLEI BERNARDO LOPES – DIRETOR DO CAMAT / ALAN FARIAS – MOVIMENTO COMUNITÁRIO / ANASTACIO JUSTO – MOVIMENTO COMUNITÁRIO / DANIELE DOS SANTO – MOVIMENTO ESTUDANTIL / FELIPE LEÃO – ESTUDANTE DA FAESA / MARIA DAS GRAÇAS BREDA JUSTO – MOVIMENTO COMUNITÁRIO DE JOANA D'ARC / ROGERIO BREDA JUSTO – MOVIMENTO COMUNITÁRIO DE JOANA D'ARC / ROSANGELA TEIXEIRA DE ANDRADE – MOVIMENTO COMUNITÁRIO DO CENTRO DE VITÓRIA / VANESSA FOSSE – ESTUDANTE DE ECONOMIA / BRUNO LEÃO – GUARDA MUNICIPAL DA SERRA / EDUARDO CALLEGARI – MOVIMENTO COMUNITÁRIO DE CAMPO GRANDE / MICHEL KNAAK – MEMBRO DA JUVENTUDE DO PT / DOMÍCIO FAUSTINO – PRESIDENTE DO DCE DA NOVO MILÊNIO / JESSICA CONCEIÇÃO – ESTUDANTE DE BIOLOGIA E MEMBRO DO COLETIVO KAZA PRETA / NAYARA EVELYN SOUZA SOARES – ALUNA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL / MONIQUE CARDIN FASSARELA - COORDENADORA DE CULTURA DA JPT – ES / BARBARA GHIDETTI – ESTUDANTE DE DIREITO DA ESTÁCIO DE SÁ / FELIPE MOREIRA – JORNALISTA / ICARO CANIÇALI – ESTUDANTE DO IFES.


sábado, 10 de março de 2012

A Universidade do Século XXI em crise- Perspectivas

*Pedro Teixeira


É importante antes de entender a crise do modelo universitário que chegamos, [re]construir o momento histórico de organização da Universidade.

O processo de conhecimento é uma das situações mais instigantes da mente humana. Desde o início de nossa existência, sempre buscamos obter informações, seja para adaptação e sobrevivência ao meio ambiente hostil ou para receber e enviar comunicação para consequentemente poder ter uma compreensão maior do nosso meio.

Todavia na Grécia, com o aparecimento dos ideais de aprendizado discipulado, com uma formulação constante da reflexão em verdadeiras salas de aula, sejam abertas como com Sócrates e Aristóteles, seja em Academias como a precursora Academia em Atenas organizada por Platão, que a Universidade começa a se ingestar. 

O mundo humano-social com tais inovações, progrediu em raciocínio, reflexão, tecnologias e filosofia como nunca antes. Tanto é assim que os modelos gregos foram parar em Roma e expandiu-se por todo o Império Romano.

Mas é na Idade Média com o Fortalecimento da Igreja Cristã como soberana entre homem e Estado que para centralizar essa soberania e aumentar sua hegemonia, a Igreja começa a organizar de maneira sistemática, um contingente de escolas para o clero que a partir de Tomás de Aquino, começam a proliferar o pensamento Escolástico.

Longe de entrar em minúcias sobre a ideologia de tais modelos de conhecimento, é a partir deste período na história que a Universidade moderna começa a tomar forma.

O aprendizado realizado em conventos, mosteiros e igrejas se proliferou por toda a Europa e já em 1150 a Universidade de Bolonha nascia com fins de dar acessos “universais” a seu clero e pupilos de financiadores da Igreja. O Cristianismo de Roma ascendido através do pensamento escolástico do desapego material e da criação de diversos instrumentos de controle virtual da mente humana, refutando os ideais gregos de matéria e metafísica, criou  um modelo de conhecimento que originou a catalogação da educação de forma a sistematizar o aprendizado para prolifera-lo ao senso comum de acordo com seus interesses. 

O aprendizado organizado em locais sistematizados e a abertura da educação para demais atores que não compunham o clero, contribuíram para a perda do  controle de conhecimento da igreja e para um  resgate crítico protagonizado pelos ideais  Iluministas do conhecimento pela razão material e não pela escolástica metafísica, sem no entanto, alterar a "pedagogia" do aprendizado.

Inúmeros Nobres e Monarcas incomodados com a usurpação do poder soberano dos pseudos-Estados em organização recente, resolveram organizar pensamentos culturais de disseminação de seus ideais frente ao controle político da religião na sociedade. Nasceram assim as Universidades de Sourbonne, Oxford, Milão e outras menores por toda a Europa.

A incessante necessidade dos Estados nacionais em desenvolver novas invenções e soluções para o mundo mercantilista burguês posterior, provocaram uma série de novas descobertas com relação a maneira de cognição e conhecimento humano. Surgiram  a lógica, a linguística, o pensamento sistemático e o processo mecânico.

Surgia-se com Descartes o racionalismo cientifico, o controle da Natureza através de conjuntos matemáticos que posteriormente pelas ideias de Locke e Hume, poderiam sob qualquer prisma, serem comprovados empiricamente.

Mas é em Newton que o mundo moderno e nossa concepção de Universidade moderna encontram seu maior expoente. Ao conceber o planeta como um conjunto de leis naturais universais,  Newton entendia a ciência como ferramenta para descobrir leis universais e enunciá-las de forma precisa e racional.

Neste momento a natureza humanista até então resistente mesmo após Idade Média, começou a dar lado para o positivismo lógico. O mundo natural de reflexão do homem em relação a si e sua natureza transcendental e material desenvolveu uma ruptura. O olhar para o todo, para a crítica natural, foi erroneamente taxado somente como religioso, irracional e aprisionador.

Dessa forma, ascendeu-se o pensamento da natureza-máquina onde qualquer acontecimento natural poderia se tornar matematicamente mecânico e reproduzível. O homem que até então desenvolvia seu conhecimento com vista na sua relação com o espaço-tempo e a natureza livre, começou a querer controlar o espaço tempo  e artificializa-lo em invenções de controle.

Em toda a história humana tivemos a vontade de reproduzir atividades naturais tais como voar como pássaros, “navegar” como peixes, caçar como os animais, se comunicar em massa como os morcegos e seus radares, os sonares marinhos e tantas outras qualidades naturais que cada animal desenvolvia em relação a natureza e que a própria natureza possui para sobreviver. 

Entretanto, com a redução do mundo natural ao mundo-máquina, o homem transmutou a ideia de criação, seletividade e reprodução natural para métodos de controle pré-definidos em que tudo ou boa parte, pode ser reproduzido mecanicamente.

Tais preceitos alavancaram a concepção liberal de constituição política e de desenvolvimento econômico, abrindo espaço para o mundo capitalista moderno. Com o neoliberalismo pós-crise do petróleo e sua exportação em massa protagonizada pelo consenso de Washington, a educação mundial deixou de se tornar um serviço essencial do Estado que a financiava, para se tornar um modelo financiado pelo capital privado, haja vista que o Estado deveria intervir minimamente.

Assim, expandimos como nunca antes as Universidades operacionais (Marilena Chauí, 2003) aquelas que se desenvolvem sob a ótica do consumo, da mera reprodução mecânica sem formação crítica, e para reserva de mercado. 

Ao reproduzir o mundo mecanicamente, a Universidade começou a desenvolver conhecimento com base no controle da informação e em direcionar pesquisas apenas para administrar o sistema vigente desenvolvendo soluções pontuais provocados pelo desfoque localizado da “especialização” cientifica.


A Universidade portanto, se tornou uma organização de adaptação social, de reprodução dum sistema líquido volátil, em movimento onde quem detém o conhecimento prévio da volatilidade, detém poder. Ao aprofundar esse modelo de educação, a Universidade ajudou também a proliferar a sociedade das incertezas, onde o motor da história ultra veloz transforma as incertezas em inseguranças.

Como se sabe, a insegurança causa paralisia, medo, estagnação. Ao promover a liquidez social e as incertezas das mudanças a todo instante, a Universidade perdeu seu papel de crítica e de afastamento da realidade vigente e já não consegue conceber seu papel democrático e plural como forma de conservar a crítica constantes a todos movimentos e a propor soluções universais alternativas novamente.

Ao invocar soluções mais pontuais e desfocadas, a Universidade contribui para o afastamento cada vez mais intenso da integração entre as ciências para a formulação de um plano completo.

É nesse cenário que o movimento Estudantil Nasce no Brasil. A década de 1960, sem dúvida serviu para a formulação de crítica ao modelo político adotado e foi substancial o papel de estudantes, intelectuais e acadêmicos da Universidade para esse movimento crítico.

Entretanto em nenhum momento a luta pela democratização política e do acesso ao conhecimento na realidade brasileira com a expansão da Universidade Pública para todo o Brasil e a defesa de uma educação gratuita que desde a ditadura, Darcy Ribeiro muito protagonizou, não serviu para garantir um ambiente acadêmico democrático e plural em que de fato as variadas matrizes ideológicas e sociais circulem livremente por nossos campi.

Pelo contrário, a proliferação das Universidades, vem reproduzindo cotidianamente a concentração de novos feudos sociais onde temos um contingente de suseranos e um número pequenino de Senhores que,  sejam em seus espaços acadêmicos, seja nos espaços administrativos, seja na manutenção de um poder fictício em entidades aparelhadas do movimento estudantil, atrasam um projeto de construção alternativo e de reavivamento da Universidade enquanto ferramenta social de crítica a modelos erroneamente postos e na construção de estratégias de desenvolvimento que solucionem os novos paradigmas que o capitalismo global do consumo ocasionou. 

Num mundo complexo do século XXI, em que o capitalismo atingiu seus mais extremados índices de implementação mundial, negar a necessidade de soluções coletivas em que a síntese dialética entre várias opiniões é condição sine qua non para o avanço de um modelo altermundista para um sistema em crise, é manter um modelo falido que apenas perpetuará lideranças administrativas do sistema que não irão apesar de possíveis discursos "raivosos", democratizar conhecimento e transformar o modelo anti-social vigente.

Ao proclamar-se a vanguarda social da Universidade, com respostas dogmáticas e unilaterais, a esquerda da Universidade em crise moderna, não consegue dialogar com o gigante contingente de novos atores incluídos, como a nova classe média brasileira que pelo meteórico acesso ao consumo, chega à Universidade reproduzindo conceitos e ideias do senso comum em que o patrimonialismo, o patriarcalismo, o neoliberalismo e as ideias separatistas protagonizada pela sociedade do consumo individual promovem.

O gigante contingente que teve acesso ao ensino superior nos últimos tempos, além de terminar seus anos de estudo apenas com o conhecimento técnico mecânico, sai da Universidade em sua maioria, sem aprender que tem direito à participação política, a intervenção social e a refletir criticamente os conceitos “[i]mutáveis” que a sociedade nos impõe.
  
O movimento Estudantil portanto, longe de separatismos ideológicos e de buscas por verdades absolutas na Era das incertezas, deve ter a sensibilidade ajustável de uma estratégia democrática e plural de participação social, de democratização de suas instâncias de deliberação, de se conectar com a virtualização massificada que a sociedade do “tempo real” nos impõe e se reinventar.

O movimento estudantil precisa se conectar com as novas juventudes que estão surgindo – as juventudes do terceiro setor, as juventudes dos PET’s, dos clubes do livro, do movimento festeiro e/ou de todo nicho e segmento que historicamente é desprestigiado pela “intelectualidade” cultural da esquerda que por conta disso, tem diminuído cada vez mais.

Na década do milênio, com o Sistema-mundo em crise, as receitas econômicas neoliberais sem soluções e com o Brasil desenvolvendo seu ideário de desenvolvimento e Estado-Nação num contexto latino-americano integrador, é fundamental para a Universidade e seus atores políticos começarem a se indagar onde vão querer sentar nesse trem-bala gigantesco e global que os Estados Nacionais se inseriram através do sistema econômico e que só poderá ser alterado de maneira conjunta com todos aqueles que os desenvolvem.


*Militante do Movimento Mudança e gestão @conectaufes do DCE-UFES