sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Pelo Protagonismo da Juventude na Revolução Cultural.

Reflexões sobre o texto encaminhado aos “Companheiros coordenadores da Mensagem e companheiros militantes de nosso movimento”

*Pedro Teixeira

Gostaria de tecer alguns comentários a respeito da resenha do companheiro Tarso aos coordenadores e companheiros da Mensagem ao Partido.

Em primeiro lugar, um texto da atual envergadura mostra o quão preparado está o companheiro para suscitar debates centrais dentro da Mensagem, do Partido e da Nação.

Em outro plano, quero chamar a atenção para através deste texto, suscitarmos um amplo debate dentro do MAIS e da Mensagem ao Partido sobre o tema central que fora colocado por Tarso, o Partido dos trabalhadores vive hoje um paradigma: Não ser mais um “ partido revolucionário contra a ordem, nas origens do PT”  e ter que conviver com a idéia de ser um “partido socialista de natureza radical-democrática dentro da ordem”.

Ser um Partido socialista dentro da ordem significa ter responsabilidade para com o sistema, a sociedade e a nação. É muito mais do que ser um partido de oposição e fiscalização de um governo, é garantir que no curto e médio prazo, o país se desenvolva no sentido de garantir a paz social, o alimento na mesa da população e a manutenção do CAOS.

Retroagir para o movimento primitivo de socialismo clássico e que infelizmente ainda hoje os esquerdistas radicais pautam, é não se preocupar com todo um país de dimensão continental que possui necessidades imediatas. No entanto, como ter que cuidar da manutenção do sistema para não promover o caos, sem perder de vista a real necessidade de implantarmos o socialismo através desta revolução democrática defendida por todos nós?

Sem dúvida a disputa pela hegemonia política de projeto para o País nos espaços estatais é um caminho real e necessário para termos a governabilidade necessária.

Daí a real necessidade de disputarmos o governo e o partido coerentemente e propositivamente para garantirmos que esta disputa de hegemonia, não seja apenas para se ter o poder pelo poder e nem garantir a pura e simples manutenção do status quo do Partido dos Trabalhadores no aparato estatal.

Identificarmos que o Governo Petista está em disputa, tanto dentro de nosso partido (por pessoas com visões mais inclinadas a retroagir para o esquerdismo ou para o neoliberalismo), como dentro do governo (pela direita reacionária), é extremamente necessário para que nós internamente, possamos analisar como intervir  tanto no âmbito estatal quanto partidário.

Dessa forma, quero nestas considerações dialogar com a esquerda do Partido e principalmente dentro da juventude, alguns pontos de ação que não fora mencionado no texto em reflexão.

1)     O Partido passa por uma crise etária em que a falta de transição geracional provocou um envelhecimento de nossos quadros, um engessamento de nossas estruturas que por estarem a muito tempo com as mesmas pessoas, acabam provocando a manutenção no poder de uma mesma visão política e de uma mesma tática, praticadas pelas mesmas pessoas envelhecidas.

2)     Há uma real necessidade (se quisermos colocar em prática todo o modelo proposto pela Mensagem e por todo o aparato teórico acumulado por nós até hoje), de os “velhos” que compõem este campo darem a oportunidade e viabilizarem as condições para que nossos quadros de juventude possam entrar e ganhar a disputa da gestão de políticas públicas no Estado, para que possamos empregar este novo entendimento político e tática em que a juventude se reivindica como formuladora. 

3)     Essa real necessidade é mais urgente quando analisamos o momento que passamos na sociedade brasileira. Estamos vivendo os frutos do babyboomer  nacional em que hoje a quantidade de jovens de 15 a 29 anos no País ultrapassa os 50 milhões. Somos praticamente 1/3 da população nacional é há uma real e imediata necessidade de desenvolvermos políticas de governo que coadunem numa verdadeira revolução cultural principalmente para esta camada da sociedade que num futuro muito próximo será a que terá um protagonismo fundamental no desenvolvimento do País.

4)     Essa revolução cultural é urgente, haja vista que as políticas desenvolvidas ao longo do período Lula I e Lula II, programaram um novo marco no desenvolvimento social e nas oportunidades desta juventude brasileira. Fora ela que se aproveitou do desenvolvimento da “nova classe média”, da oportunidade de acesso ao ensino superior, ao ensino profissionalizante, ao mercado de trabalho, a mobilidade social e ao acesso aos bens de consumo. Entretanto, num tom de crítica, sabemos que o governo Lula não conseguiu avançar para transformar o ideário de toda essa camada da sociedade ou de qualquer outra.  Não é possível podermos falar de um modelo de governo socialista-petista que apenas priorize a disputa de hegemonia política e a governabilidade. É preciso que haja uma real disputa pela hegemonia de idéias dominantes.

5)     Desenvolvemos as oportunidades de ingresso ao mercado de trabalho, mas não conseguimos desenvolver a oportunidade de ganhar os corações e mentes da sociedade. A educação ainda é neoliberal, tecnicista e tem na universidade um meio para atingir um fim – o mercado de trabalho e não a emancipação social do homem. O ensino profissionalizante é ainda pior pois sequer há espaço para divagação teórica. O Tempo é curto e a necessidade de se formar imediata.

Se quisermos trabalhar com a idéia de disputa no partido para garantir que este não se torne um partido social-democrata e/ou reformista, se quisermos trabalhar para que o governo em disputa seja um governo que tenha em voga o tema revolução democrática como fundamental para um plano de país de médio e longo prazo e se quisermos ter a sociedade ratificando este modelo de gestão, é fundamental investirmos maciçamente na transição geracional da juventude dentro do Partido dos trabalhadores e no governo além de uma revolução cultural imediata  que fomente o desenvolvimento das artes, cinemas,  obras literárias, apresentações musicais e qualquer outro tipo de cultura que tenha como análise e lógica o nosso modelo ideológico de pensamento, que consiga disputar a hegemonia de idéias da burguesia e neoliberal tão arraigada em nossa sociedade.

O momento é agora. A formação desse jovem que nos próximos cinco ou dez anos estará totalmente ingresso no mercado de trabalho e na cadeia produtiva e de desenvolvimento do País deve ser desenvolvida imediatamente se quisermos colocar o Brasil no leque de opções alternativas ao sistema imposto e caminharmos para o socialismo emancipador.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

NOTA PÚBLICA

MOVIMENTO PELA REDUÇÃO DAS TARIFAS
 
Em 30 de dezembro de 2010, o Governo do Estado do Espirito Santo, através do Conselho Tarifário (COTAR) decidiu, ao apagar das luzes, aumentar as tarifas do Sistema Transcol. Diante de tal medida, entidades estudantis, juvenis e usuários inconformados decidiram promover manifestações que pudessem colocar o aumento das tarifas em discussão na sociedade e no governo.

Mesmo com as férias dos estudantes, período convenientemente escolhido pelo Governo por comprometer nossa mobilização, o Movimento promoveu nas duas últimas semanas várias atividades que recolocaram o assunto na pauta política da sociedade capixaba. Ocupamos ruas, avenidas, a praça do pedágio e acampamos na Assembléia Legislativa, sempre mantendo em nosso movimento um caráter propositivo e de diálogo.

Apesar do caráter pacifico de nossas manifestações, o Governo Casagrande tratou o movimento como caso de polícia, havendo alguns graves incidentes devidos ao uso desproporcional da força policial. Mesmo assim, conseguimos evitar confrontos maiores.

Diante da nossa persistência, o Governo percebeu a necessidade do diálogo, visto que suas ações anteriores não estavam surtindo efeito. Nesse momento, propôs ao movimento que se formasse uma comissão para tratar do assunto, o que foi prontamente aceito.

Iniciado o diálogo, foi apresentada ao governo uma pauta de reivindicações construída amplamente pelos movimentos sociais que estão nesta luta. Depois da entrega da pauta, o governo pediu uma semana para avaliar e assim apresentar uma contra-proposta ao movimento.

Em reunião realizada no dia de hoje na sede da SETOP, o governo se colocou pouco receptivo a atender a pauta do movimento, apresentando várias justificativas para não atender nossas reivindicações, cedendo apenas no que tange a criação de um Conselho.

Dessa forma, vimos a público dizer que somente a criação de um Conselho de caráter Metropolitano não atende às demandas dos usuários do Sistema de Transporte Público Urbano. Sendo assim, através desta nota oficial, apresentamos mais uma vez nossos pleitos:

• Criação de um Conselho Estadual de Transporte Público Urbano no prazo de 90 dias;

• Redução do preço da tarifa aos valores referentes ao ano de 2010 até o mês de maio, quando já estará consolidado o Conselho Estadual que poderá fazer essa discussão de forma legitima e democrática;

• Extinção imediata do Conselho Tarifário (COTAR);

• Garantias de que haja mecanismos de transparência nas discussões do preço da tarifa tais como:

- Mudança na data da reunião ordinária que discute o preço da tarifa;

- Entrega da planilha de custos com um mês de antecedência;

- Garantir que as reuniões que discutirão os preços da tarifa sejam precedidas de audiências públicas.

Por fim, o Movimento convoca a população capixaba a lutarmos juntos para que o governo atenda nossas reivindicações, na certeza de elas serem o caminho real para termos um transporte público de melhor qualidade, mais acessível, que caiba no bolso do estudante e do trabalhador capixaba e que garanta a dignidade da pessoa humana.


Vitória – ES, 04 de Fevereiro de 2011.


Movimento pela Redução das Tarifas.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Estudantes dão o crack e vão a luta contra os barões do Transporte Público em Vitória.


Ontem, sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011, fora o dia nacional de mobilização dos estudantes contra o aumento abusivo e em cascata das tarifas de ônibus de todo o País. 
Em São Paulo, Curitiba, Salvador e tantas outras, estudantes indignados, pegaram pra si o movimento de combate a exploração dos trabalhadores que vêem todo o seu salário ir para o bolso das empresas permissionárias do transporte público. 

Em Vitória, tivemos nossa mobilização. Desde a Semana passada, o DCE da UFES, da UVV, a UMAES, UESES, Centros Acadêmicos, o Movimento Passe Livre, Contraponto, Levante e a Mudança, claro, se organizam para que a revogação do decreto que fez subir a passagem do TRANSCOL em mais de 10%, contrariando a própria inflação acumulada no período seja revogado.

Ontem foi a vez da Assembléia Legislativa, casa das maracutaias e movimentos mandraques de Deputados que fazem o acordão em torno de temas polêmicos para levar a sua propininha sobre aquele assunto, sofrer uma investida do Movimento Estudantil.
Mais de 400 Estudantes organizados, foram até aquela casa de leis, dispostos a ocupar o palácio de mármore e esperar um posicionamento do Estado. Infelizmente, ao chegar no local, foram surpreendidos por um ônibus da tropa de choque especial, 6 viaturas da equipe de ronda e ataque a ROTAM e mais algumas dezenas de Policiais Militares. 

Mesmo sabendo da autoria pacífica do evento, o Governo do Estado que se diz Popular e Socialista do Senhor Renato Casagrande (PSB-ES), deu a ordem juntamente com o Presidente da ALES, EX responsável do DOPES da Ditadura no Estado, Deputado Élcio Alvares (DEM), mandou a Polícia reprimir o evento e impedir a entrada a todo custo.
Por sorte, a Bancada Petista recém-eleita e não empossada estava em reunião e eu juntamente com uma comissão eleita, fomos chamá-los para nos ouvir e permitir a entrada. 

Não teve jeito, a truculência da PM foi deflagrada no momento em que alguns estudantes, impacientes com a demora na negociação com os Deputados, tentaram a entrada. 
Pauladas, chutes, xingamentos e muita violência por parte da polícia, marcaram a atividade. 
Eu que estava na organização e negociação apanhei, levei socos, gritos e empurrões. Fui expulso da Assembléia no meio das negociações com os Deputados Petistas. Tadeu do MTL foi preso e espancado. O Estado da repressão e da manutenção da ordem burguesa se mostrou infalível e competente mais uma vez. 

Mas não importa, enquanto houver mundo, enquanto houver injustiças deflagradas, os estudantes estarão organizados, resistindo por um algo melhor.
A juventude não é só uma época para nos divertirmos, também é o momento ideal para construirmos o alicerce da vida futura. Alicerce forte, justo, digno, de igualdade de condições. Doce, feliz, alegre, romântico e emancipador. 

Futuro em que o governo realmente seja do povo.

Aos burgueses e os poderosos, sinto muito, não há nada a se fazer, só aguardar.

Pedro Teixeira

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Manifesto do Movimento Mudança ao 13º CONEB e a 7º Bienal da UNE

Entre os dias 15 e 17 de Janeiro de 2010 mais de 7000 estudantes de todo o País participaram das atividades do CONEB da UNE que desembocaram ao chamamento de todos os estudantes para a Jornada de lutas de 2011. Um encontro de ampla mobilização em que inúmeros CA’s decidiram vir até a União Nacional dos Estudantes e construir a entidade.

Nós do Movimento Mudança, achamos fundamental a existência deste foro de representação onde alunos de todos os Centros Acadêmicos do Brasil possuam a oportunidade de se manifestar perante os temas educacionais e políticos da Nação, bem como aprofundar o conhecimento e o acúmulo político otimizando sua formação pessoal, a construção coletiva e garantindo muita luta em suas entidades de base.

Entretanto, gostaríamos de externar a toda a comunidade estudantil alguns apontamentos acumulados no III Congresso Nacional da Mudança realizado no Centro Tecnológico e na Faculdade de Letras da UFRJ no Estado do Rio de Janeiro entre os dias 19 e 21 de Janeiro em meio a Bienal de Arte e Cultura da UNE.

Em primeiro lugar, o Movimento Mudança reafirma o Congresso Nacional das Entidades de Base – CONEB, como um foro prioritário para o debate, o profundo acúmulo político e o mais amplo e democrático encontro com a Base. O CONEB jamais poderá ser mais um foro de deliberação da UNE e sob nenhum aspecto uma etapa para o CONUNE.

Infelizmente o 13º CONEB da UNE apresentou falhas no seu formato e organização que impossibilitaram a plena garantia de um profundo debate e aprendizado com a base e pela base. Queremos garantir aqui que os GT’s ocorram conforme a programação, que sejam sistematizados e votados por todos na plenária final e que o último dia do fórum seja mais participativo, dialogável e menos excludente para com os milhares de Centros Acadêmicos de todo o País, contribuindo para os torná-los mais do que meros expectadores.

Além disso, reafirmamos a necessidade de uma Bienal da UNE em que o número de alunos inscritos no evento, seja o mesmo que o da capacidade que a organização do Evento tem para receber todos os inscritos nela nos dias de suas atividades.

Por fim, viemos manter nosso posicionamento de radicalização da democracia na entidade, o que culmine numa decisória participação dos alunos, dos representantes de Centros Acadêmicos, Diretórios Centrais, Entidades Estaduais e Federação de Cursos nos rumos da União Nacional dos Estudantes, fato este que só é possível ocorrer pelas “Diretas Já” na entidade.

Diretas que torne de fato o poder de voto do estudante na base, fundamental. Que provoque uma verdadeira reviravolta na maneira de organizar o movimento estudantil, trazendo a tona os verdadeiros atores da Revolução Educacional e de transformação da sociedade: Todos os Estudantes!

Viva o 13º CONEB, que venham todos construir um novo Movimento Estudantil, pela base, democrático, ético e propositivo.

Estudantes, uni-vos,
a UNE é de todos nós.

Movimento Mudança
III Congresso Nacional do Movimento Mudança

Rio de Janeiro, 21 de Janeiro de 2011.

Carta de propostas do GT: Conjuntura Internacional e Nacional, desenvolvida no III Congresso Nacional da Mudança

O Movimento Mudança, pautando-se pela revolução democrática de transformação da sociedade pelo viés socialista e gradual, deve-se prezar em sua plenitude pela radicalização da democracia.
 
Para isso, é mais que necessário que esta prática seja cotidiana dentro do Movimento. É somente com um monte de gente construindo junto o projeto de movimento estudantil que queremos disputar na UNE, que faremos a transformação real da educação brasileira, as Diretas Já na União Nacional dos Estudantes e uma nova cultura política do movimento estudantil.

Não é possível defender a Revolução Democrática no País, o alargamento da democracia Estatal, se não conseguimos garantir os espaços de decisão democrática dentro de nosso próprio movimento e de onde disputamos. 

É preciso de imediato que a nova Direção Nacional garanta que os Estados participem dos processos de construção de táticas e estratégias do Movimento Mudança, bem como dos espaços de construção coletiva de nossas lutas. É necessário que todos os Mudancistas realmente sejam parte do processo de organização do Movimento Estudantil Nacional. 

Só assim será possível radicalizarmos a base, reafirmando nossos ideais e chegarmos ao CONUNE fortes, concisos e com muito movimento, fazendo na disputa deste fórum, a legitimação de tudo aquilo que realmente acreditamos, pois, Mudança é Movimento e movimento democrático.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Reformismo revolucionário: a estratégia da esquerda latina


"Estado", "política", "história", "revolução" são as ferramentas da esquerda latino-americana para atacar as consequências e também as causas do capitalismo, promovendo ao mesmo tempo a integração do Continente em termos políticos, econômicos, sociais e culturais. A estratégia pode ser condensada na fórmula do pensador judaico-romeno Lucien Goldmann: "reformismo revolucionário".

Por Luiz Marques*

Algumas palavras pareciam condenadas à lata de lixo, sob a pressão doutrinária das últimas décadas. "Estado" é uma delas. Acusado de perdulário, mastodôntico e ineficiente em contraposição à livre iniciativa, apresentada como paradigma, o aparelho estatal foi execrado para justificar as desregulamentações e o desmonte que vitimaram os serviços públicos. Embalados pelo canto de sereia do fenômeno divulgado na condição de uma tendência inexorável, que converteria o planeta em uma aldeia global, muitos inclusive, iam ao cúmulo de classificar de inútil a escolha de presidente para os Estados nacionais. As eleições teriam perdido o sentido frente a uma realidade na qual as linhas principais da política econômica seriam ditadas pelo FMI e o Banco Mundial. Das "Diretas já" às "Indiretas sempre", um passo à frente, dois atrás. 

Considerando que, quem fala Estado fala política, esta sob a hegemonia do neoliberalismo foi também minimizada e criminalizada. Basta lembrar o argumento de Fernando Henrique Cardoso para reprimir a greve dos petroleiros no primeiro mandato: "Trata-se de um movimento... político". Pior, contrário à intenção tucana de privatização da Petrobrás. Dê-lhe tanques.

Analiticamente, para o príncipe do Consenso de Washington, os petroleiros cometiam então três delitos: a) manifestavam-se fora do Congresso Nacional, único espaço para a prática política tida por legítima; b) intervinham como um corpo coletivo organizado, quando apenas a desobediência civil de indivíduos avulsos era admitida; c) defendiam o patrimônio público construído por várias gerações, numa época em que moderno significava entreguismo. A repressão manu militari sobre os trabalhadores mobilizados marcou o início de um retrocesso civilizacional de resultados perversos para o povo brasileiro.

FHC, no caso, agiu de acordo com uma antiga aspiração das elites, eliminar a política das ruas e, no limite, esconjurá-la para longe do próprio Estado. Não à toa, Platão propunha para os postos hierárquicos de mando na sociedade os "filósofos". Saint-Simon, os "industriais". John Galbraith, os "tecnocratas". Hoje fala-se nos "gestores", na tentativa ainda de elidir a dinâmica objetiva da luta de classes e despolitizar a vontade subjetiva dos governantes. No fundo, essa visão gerencial sobre o exercício do poder central reflete a autonomização, mais imaginária que real, das políticas públicas no que concerne às questões estruturais e ao conteúdo de cada projeto político-ideológico. Como se as políticas públicas não tivessem governo.

Compreende-se assim que um dos cinquenta executivos de destaque entre os países emergentes, conforme a tabela de celebridades do Financial Times, tenha descrito Dilma Rousseff como "uma gestora pública, tecnocrata de boa formação, de bom senso e experiente, o que será muito bom para o Brasil" (Zero Hora, 12/12/2010). A completa assepsia política da descrição traduz o desejo atávico das classes dominantes, desde a remota Antiguidade.

Do triunfalismo à surpresa

Francis Fukuyama, em 1989, com espalhafatosa cobertura midiática, anunciou o fim da história e fixou um programa máximo (sic) para o Ocidente: a economia de mercado e a democracia representativa. Inaugurava a ideologia imperialista da Nova Ordem Mundial. A senha para um padrão implacável de relações econômicas, que não aceitavam discussão e cobravam obediência imediata sob ameaça de expulsar os atores da cena e aprisioná-los em uma dependência abjeta, como se fossem escravos de novo, denunciou o geógrafo Milton Santos com o neologismo "globalitarismo", para realçar o viés totalitário da globalização neoliberal.

A utopia socialista que movia a rebeldia era condenada a um passado jurássico, junto com os ideais da cidadania ativa. O capital, triunfante, decretava a paz perene. Como no verso de T. S. Eliot, "sonhando com sistemas tão perfeitos em que o bem seja de todo dispensável". Doce ilusão. O Zapatismo, que veio à luz no emblemático dia em que entrava em vigor a North American Free Trade Agreement (Nafta), o tratado de livre comércio dos Estados Unidos com o Canadá e o México, em 1° de janeiro de 1994, mostrou que a recusa à exploração e à opressão mantinha-se acesa sob as cinzas. Em paralelo, a experiência do Orçamento Participativo nos anos 90 revelou que a socialização da política é o melhor antídoto à apatia das camadas empobrecidas, à corrupção e às demasias burocráticas da administração pública.

Em uma conjuntura nacional e internacional repleta de adversidades, a criatividade e a irresignação estiveram localizadas no eixo da resistência que ligou Chiapas a Porto Alegre simbolicamente. Esses centros laboratoriais acuaram o medo e fizeram ressurgir a esperança. Os pobres tornavam a ser cidadãos. A dominação capitalista não afigurava-se como uma fatalidade ou um destino, "surpreendendo aqueles que não acreditavam mais na possibilidade de mudanças sociais e que haviam abandonado a história", enfatizou a socióloga Laura Tavares Soares (Os custos sociais do ajuste neoliberal na América Latina, SP, Ed. Cortez, 2000).

A dialética corcoveava, rejuvenescida na linguagem sem esquematismos do subcomandante Marcos e nas assembléias comunitárias do prefeito Olívio Dutra. Preparava-se o terreno para o I Fórum Social Mundial. Movimentos tradicionais (com vetor no trabalho) somavam-se aos contemporâneos (feministas, ecológicos, contra a fome, etc.) para questionar a gramática da exclusão, reatualizar o valor da solidariedade e devolver a dignidade à política. As promessas do paraíso reaganista, calcadas no fetichismo da mercadoria, esfumavam-se. As bandeiras vermelhas regressavam às praças. Mas havia pedras no caminho. E a "imprensalão" tencionou à procura de desvios, fabricando uns tantos com sensacionalismo e ódio de classe. Assustados e incapazes de uma leitura correta sobre os acontecimentos, os setores médios afastaram-se da estrela guia.

A militância petista não se intimidou, porém, e a caravana popular seguiu avante, comunicando-se em portunhol. Ao lado, os cães ladravam e ensaiavam o frustrado impeachment do presidente Lula. O Estado reassumia, aos poucos, suas funções clássicas para atender as demandas da população, e um papel regulatório na economia para alavancar o desenvolvimento sustentado e combater as desigualdades sociais e regionais. "Estado", "política", "história" foram palavras recontextualizadas graças à ascensão das forças antineoliberais na AL.

Céu com nuvens carregadas

Vislumbram-se outras batalhas no horizonte. A direita articulada em torno do Tea Party, o nó górdio do Partido Republicano dos EUA, em um ambiente recessivo e agravado com o corte nos gastos sociais, redobra a disposição conservadora de organizar o conjunto das relações sociais pela premissa da mercantilização de tudo e todos, com um script que mescla individualismo e belicismo. Se o roteiro causa a sensação de um déjà vué porque o novíssimo ideário direitista reconduz o mundo ao caos societal, isto é, à condição natural hobbesiana que faz do homem lobo do homem. A barbárie continua pedindo passagem para romper o contrato social de proteção aos direitos e espalhar a miséria e o sofrimento. Fuck you!

A postura intransigente do Tea Party aponta para uma posição de confronto com as nações que, soberanas, buscam superar o status quo. Sem que se possa esperar um freio à sede de sangue da ultradireita (vide post de Emir Sader: Obama e Lula, 09/12/2010) e nem consideração com o princípio elementar da liberdade de expressão (vide a perseguição, esta de fato terrorista, ao portal do Wikileaks). Perigos e dilemas rondam o futuro. O Norte direitiza-se com extremismo; o Sul esquerdiza-se, embora com moderação e respeito à institucionalidade. É possível antecipar tensões e retaliações, com o alargamento da crise, do desemprego e da anomia social no território estadunidense. O Irã que se cuide.

Enquanto isso, o Brasil avança, reduz a pobreza, projeta um Estado de bem-estar social. Diante das inusitadas conquistas, referendadas com a vitória de Dilma, Lula utiliza o bordão "como nunca antes..." para chamar a atenção sobre o que está em curso no país. Tem nome, "Revolução Democrática". Rafael Correa, o presidente do Equador, refere-se à "Revolução Cidadã". Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, à "Revolução Bolivariana", em homenagem ao lendário libertador Simon Bolívar. Evo Morales, o presidente da Bolívia, à "Revolução Democrática e Cultural" como uma ponte para o "Neo-socialismo".

O denominador comum é a idéia de "revolução", mais um mote maldito esquecido no porão que sacode a poeira e dá a volta por cima. Nenhuma alusão à luta armada, mas sim à elevação do nível de consciência das maiorias, ao empoderamento dos movimentos sociais, aos vínculos orgânicos desses com os partidos políticos comprometidos com as mudanças e aos progressos institucionais para aprofundar a democracia e a justiça social. "Não façam o que eu fiz", aconselhou Fidel Castro em reunião com um grupo de líderes reformadores sobre a questão do método (Che Guevara, 80Th AnniversaryTrilogy Collection, DVD).

"Estado", "política", "história", "revolução" são as ferramentas da esquerda latino-americana para atacar as consequências e as causas do capitalismo, promovendo ao mesmo tempo a integração do Continente em termos políticos, econômicos, sociais e culturais. A estratégia pode ser condensada na fórmula do pensador judaico-romeno Lucien Goldmann: "reformismo revolucionário". Paradoxal, só na aparência, como o realismo mágico de nossa literatura. La nave va.

*Luiz Marques é professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) 

Fonte: Opera Mundi

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Dois Mil e onze

"Tô me afastando de tudo que me atrasa, me engana, me segura e me retém. Fui ser feliz, e não volto!"

Caio Fernando Abreu

2011 será assim.